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Dois quartos dos Médici: entre estações e espelhos

Svitlana Glumm5 min. de leitura
Foto: © Bastian Glumm
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No coração de Florença ergue-se o Palazzo Medici Riccardi, uma fortaleza de pedra do Renascimento, símbolo do poder de uma família e testemunho vivo de arte, estratégia e beleza. Conhecido pela Capela dos Reis Magos e pela sua arquitetura monumental, o palácio encerra também espaços raramente mencionados nos guias de viagem, mas que carregam profundamente o espírito da época. São eles o quarto das Quatro Estações (também chamado Sala Vermelha) e a Sala dos Espelhos.

O Quarto das Quatro Estações

Em meados do século XV, Cosimo de' Medici, o Velho, político sagaz e mecenas das artes, mandou criar um espaço singular no palácio, não uma sala oficial, mas um lugar discreto para conversasreservadas, decisões silenciosas e alianças estratégicas.

As paredes foram revestidas com veludo vermelho-escuro de Génova, o pavimento ornamentado com terraço de mármore e o teto decorado com caixotões de madeira dourada. O verdadeiro coração da sala eram, porém, quatro tapeçariasflamengas suspensas nas paredes, cada uma dedicada a um motivo de estação: a Primavera com uma jovem de coroa de flores, o Verão com espigas douradas e o sol sobre a cabeça, o Outono com videiras e frutos e o Inverno com uma capa pesada sob árvores despidas.

As paredes da "Sala Vermelha" foram revestidas com veludo vermelho-escuro de Génova, o pavimento ornamentado com terraço de mármore e o teto decorado com caixotões de madeira dourada. (Foto: © Bastian Glumm)
As paredes da "Sala Vermelha" foram revestidas com veludo vermelho-escuro de Génova, o pavimento ornamentado com terraço de mármore e o teto decorado com caixotões de madeira dourada. (Foto: © Bastian Glumm)

As tapeçarias evocavam o ciclo do tempo

Estas tapeçarias eram mais do que decoração: evocavam o ciclo do tempo, a mutabilidade do destino humano e o facto de que mesmo o maior poder atravessa as suas fases. Assim, o espaço ganhou em breve o seu segundo nome, oficioso: Quarto das Quatro Estações.

Diz-se que aqui foram tomadas decisões que alteraram o curso da política florentina. Sem discursos em voz alta, apenas vozes serenas e olhares que decidiam destinos de cidades e de pessoas.

A Sala dos Espelhos: a arte como espelho da alma

Algumas décadas mais tarde, sob o governo de Lorenzo de' Medici, o célebre "Il Magnifico", mecenas, filósofo e poeta, nasceu um espaço de natureza completamente diferente. Em contraste com a seriedade sombria da "Sala Vermelha", a Sala dos Espelhos era um lugar luminoso, quase encantado, concebido para a leveza, a inspiração e a liberdade de pensamento.

Lorenzo mandou vir mestres venezianos para instalar grandes espelhos em molduras de madeira em cada parede. A luz das velas refletia-se neles, multiplicava os rostos dos convidados e abria o espaço para uma profundidade aparentemente infinita. No centro havia um clavicórdio, lia-se poesia, tocava-se música, filósofos debatiam a alma, o amor e a estrutura do cosmos.

Sob o governo de Lorenzo de' Medici, o célebre "Il Magnifico", nasceu a Sala dos Espelhos. (Foto: © Bastian Glumm)
Sob o governo de Lorenzo de' Medici, o célebre "Il Magnifico", nasceu a Sala dos Espelhos. (Foto: © Bastian Glumm)

Aqui não se governava: pensava-se, criava-se, sonhava-se. Conta-se que Botticelli mostrou neste espaço os primeiros esboços da sua "Primavera" e que o jovem Michelangelo escutou em silêncio conversas que haveriam de alimentar o seu génio. A Sala dos Espelhos era mais do que uma sala de receção: era um lugar de reflexão interior, um espaço onde era possível contemplar não apenas a própria imagem, mas também as ideias, as dúvidas e os anseios de cada um.

Dois espaços, dois polos de uma época

O Quarto das Quatro Estações e a Sala dos Espelhos são dois mundos sob o mesmo teto: um é o lugar das decisões, dos ciclos e do controlo; o outro é o espelho da alma, um espaço para a arte, a luz e o pensamento.

Em conjunto, contam a verdadeira história do Renascimento: uma época em que o poder era impensável sem a beleza, e a beleza sem o espírito. O Palazzo Medici Riccardi é mais do que arquitetura. É um retrato da época em espaço e estilo.

E como são hoje os dois espaços?

Atualmente, tanto o Quarto das Quatro Estações como a Sala dos Espelhos fazem parte da área de acesso público do Palazzo Medici Riccardi e servem igualmente de cenário impressionante para eventosculturais. O tecido vermelho das paredes do Quarto das Quatro Estações desbotou visivelmente ao longo dos séculos, o que confere ao espaço um encanto todo próprio e venerável. O brilho dos espelhos na Sala dos Espelhos, a luz suave e o histórico teto de caixotões permitem ainda hoje aos visitantes mergulhar no mundo do Renascimento florentino, em palcos vivos onde a história continua a respirar.

Morada e horários de visita

O Palazzo Medici Riccardi, em Florença, fica situado na Via Cavour 3 e está aberto todos os dias das 9,00 às 19,00 horas (última entrada às 18,00 horas). Às quartas-feiras, bem como a 25 de dezembro e 1 de janeiro, o palácio permanece encerrado. Recomenda-se a compra antecipada dos bilhetes, uma vez que o número de visitantes em determinadas áreas, como a Cappella dei Magi, é limitado. Mais informações estão disponíveis no site oficial.

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